para um fotógrafo - mais especificamente no meu ponto de vista, pra não errar a inferência - talvez as duas coisas mais difíceis de atingir (conseguir, alcançar, se tornar) é ter um corpo de trabalho tão significativo que vai ser estudado daqui a duzentos anos, como um dos mestres ou uma das pessoas que teve alguma influência na história mundial da fotografia, não somente na cidade onde mora (deixando claro que pra mim isso nunca foi sonho nem objetivo, os meus são bem mais realistas e modestos, como por exemplo conhecer e entender todos os mestres, nem que seja mais ou menos... digamos que meu sonho seria mais pra Hans Solo do que pra Mestre Yoda - minha cachorra que está em uma foto lá embaixo seria o Chewbaca) - mas enfim, a outra coisa mais difícil de atingir é conseguir ter uma relação intensa com a fotografia, realmente entender como chegamos onde estamos como cultura e como fazedores de imagens e onde nos encaixamos nisso tudo, o que realmente nos faz, ou nos torna, fotógrafos, e porque decidimos ser, ou nos tornar, ou fingir ser, ou somente dizer que somos, fotógrafos.Não falo do trabalho ou da profissão ou do ganha pão. Pra ser fotógrafo não é preciso trabalhar com fotografia. Falo do ser mesmo, internamente, da relação que temos com o que os americanos chamam de inner self, ou mais brega em português, com nosso eu interior. Responder perguntas cujas respostas se encontram em livros é relativamente fácil, agora responder às próprias questões internas, íntimas, pessoais em relação à fotografia, isso é difícil porque as respostas mudam de acordo com o ângulo de análise. Da mesma maneira que a posição da câmera muda completamente a foto - sendo a decisão mais importante de todas - também a posição da nossa própria existência individual e coletiva muda todas as perguntas e todas as respostas. Daí a dificuldade, porque se o ponto de vista muda, a recíproca é verdadeira.
Talvez a única maneira de evitar isso tudo é não estar ciente por diferentes motivos, ou nunca se perguntar nada, fotografar sem dar bola pra essas coisas ou fazer de conta que não interessa. Mas pra que? O bom mesmo é que em fotografia nada nunca para, vem sendo um processo evolutivo contínuo desde sua criação até hoje e a cada dia novos meios e novas mentes fazem com que tudo mude e sempre haja novas perguntas, como uma fronteira sem fim onde somos os desbravadores - ou pelo menos estamos acompanhando os caras, estamos na caravana.
Essa foto fiz com a clássica Pentax 6x7 que infelizmente não tenho mais, vendi a câmera e até hoje tenho saudades e me arrependo. Aprendi que equipamento não se vende, se compra e depois se não usar bota na estante mas daí inventaram as câmeras digitais, de plástico, descartáveis, e a lição foi posta em cheque. Revelei esse filme essa semana, um Kodak Plus-X, em mais uma daquelas sessões surpresa dos filmes sem rótulo. Ficou todo manchado porque depois de fotografado venceu, ficou no armário tempo demais eu acho... Era verão do ano 2000, a long time ago, in a galaxy far far away... naquela época eu não pensava em nada disso, ainda mais no verão, ainda mais naquele dia.


