quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

a long time ago, in a galaxy far far away

para um fotógrafo - mais especificamente no meu ponto de vista, pra não errar a inferência - talvez as duas coisas mais difíceis de atingir (conseguir, alcançar, se tornar) é ter um corpo de trabalho tão significativo que vai ser estudado daqui a duzentos anos, como um dos mestres ou uma das pessoas que teve alguma influência na história mundial da fotografia, não somente na cidade onde mora (deixando claro que pra mim isso nunca foi sonho nem objetivo, os meus são bem mais realistas e modestos, como por exemplo conhecer e entender todos os mestres, nem que seja mais ou menos... digamos que meu sonho seria mais pra Hans Solo do que pra Mestre Yoda - minha cachorra que está em uma foto lá embaixo seria o Chewbaca) - mas enfim, a outra coisa mais difícil de atingir é conseguir ter uma relação intensa com a fotografia, realmente entender como chegamos onde estamos como cultura e como fazedores de imagens e onde nos encaixamos nisso tudo, o que realmente nos faz, ou nos torna, fotógrafos, e porque decidimos ser, ou nos tornar, ou fingir ser, ou somente dizer que somos, fotógrafos.

Não falo do trabalho ou da profissão ou do ganha pão. Pra ser fotógrafo não é preciso trabalhar com fotografia. Falo do ser mesmo, internamente, da relação que temos com o que os americanos chamam de inner self, ou mais brega em português, com nosso eu interior. Responder perguntas cujas respostas se encontram em livros é relativamente fácil, agora responder às próprias questões internas, íntimas, pessoais em relação à fotografia, isso é difícil porque as respostas mudam de acordo com o ângulo de análise. Da mesma maneira que a posição da câmera muda completamente a foto - sendo a decisão mais importante de todas - também a posição da nossa própria existência individual e coletiva muda todas as perguntas e todas as respostas. Daí a dificuldade, porque se o ponto de vista muda, a recíproca é verdadeira.

Talvez a única maneira de evitar isso tudo é não estar ciente por diferentes motivos, ou nunca se perguntar nada, fotografar sem dar bola pra essas coisas ou fazer de conta que não interessa. Mas pra que? O bom mesmo é que em fotografia nada nunca para, vem sendo um processo evolutivo contínuo desde sua criação até hoje e a cada dia novos meios e novas mentes fazem com que tudo mude e sempre haja novas perguntas, como uma fronteira sem fim onde somos os desbravadores - ou pelo menos estamos acompanhando os caras, estamos na caravana.

Essa foto fiz com a clássica Pentax 6x7 que infelizmente não tenho mais, vendi a câmera e até hoje tenho saudades e me arrependo. Aprendi que equipamento não se vende, se compra e depois se não usar bota na estante mas daí inventaram as câmeras digitais, de plástico, descartáveis, e a lição foi posta em cheque. Revelei esse filme essa semana, um Kodak Plus-X, em mais uma daquelas sessões surpresa dos filmes sem rótulo. Ficou todo manchado porque depois de fotografado venceu, ficou no armário tempo demais eu acho... Era verão do ano 2000, a long time ago, in a galaxy far far away... naquela época eu não pensava em nada disso, ainda mais no verão, ainda mais naquele dia.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

o arrependimento de não ter fotografado


o que podemos fazer se deixamos de fotografar alguma coisa que passou e nunca mais vai se repetir? Como lidar com isso, como fazer pra parar de pensar que deveríamos ter fotografado, porque afinal de contas, além de estar vendo ao vivo e possuir uma câmera eu também sou fotógrafo. Taí um sentimento que não existia antes da criação da fotografia: o arrependimento de não ter fotografado.

Por mais óbvio e inexpressivo, esse sentimento existe, apesar de imensurável, e uma vez sentido, nunca desaparece por completo. E quanto mais sentido, sentimento e significado a fotografia represente na vida de alguém, maior, mais potente e dolorido é o arrependimento de não ter fotografado.

Imagine ir à posse do Obama e não tirar nenhuma foto. Não, impensável, seria demais ter que viver ser ter, possuir uma imagem daquele momento. Por esse mesmo sentimento (medo, receio, precaução, seja lá qual for) todos, sempre que podem, registram os momentos importantes da vida, seja o casamento, o nascimento, o aniversário, a viagem, o cachorrinho novo, a posse do Barack, porque talvez - mesmo que inconscientemente - todos queiram evitar o arrependimento de não ter fotografado.

Fiz essa foto da tv do meu quarto, em agosto de 2002, sem motivo algum, acho que por uma mistura de tédio, curiosidade e nada mais pra fotografar. No dia da posse do Obama eu estava vendo ao vivo na CNN, minha câmera no cofre, e sei lá porque não pensei em fotografar a posse do cara, já que estava vendo o momento ao vivo, acontecendo, mesmo que através da tv. Ele estava ali, como se eu tivesse lá só que bem longe, vendo pelo telão. Claro que bem diferente mas a mistura de vontade de estar lá e ver ao vivo as vezes realmente nos leva até lá onde gostaríamos de estar. Enfim, não fotografei a posse do Barack Obama, um momento histórico sensacional, ao vivo, na minha frente, e agora tenho que conviver com o arrependimento de não ter fotografado.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

yes we can

um dia histórico, que mudou a história do mundo de um jeito profundamente repleto de significados, teve algumas curiosidades fotográficas também.

De acordo com a CNN, Barack Obama será a pessoa mais fotografada em um só dia, em toda a história. Sua posse é o evento mais fotografado de todos os tempos, e provavelmente ele será a pessoa mais fotografada, até hoje, em toda a história da humanidade.

Uma das profundas mudanças sociais que ocorreram com a invenção da fotografia foi que ela se tornou a prova de que algo realmente aconteceu. Hoje, durante o almoço depois da posse, um dos senadores disse que 'até a fotografia oficial o casamento ainda não aconteceu, então agora apresento a fotografia oficial da posse, para provar que tudo realmente aconteceu'... então foi apresentado um quadro enorme com a foto oficial.

A fotografia foi criada em 1839, os EUA tinham tido apenas oito presidentes, era ainda uma nação rescém criada e foi lá que a fotografia, os daguerreótipos, ficaram mais populares. Era como uma febre, todos queriam ter um retrato. Desde então, nos tornamos nossa fotografia, quando mostramos uma foto de nós mesmos para alguém dizemos "esse sou eu", e não "sou eu nessa foto" ou qualquer outra coisa.

Essa foto aqui de cima infelizmente não fui eu que fiz né.... é sério rsrsrsrs... e foi a foto escolhida para ser o retrato oficial. Dos daguerreótipos até hoje, os retratos se tornaram tão importantes na cultura que é impossível de representar alguém sem uma foto, e uma fotografia representa, muitas vezes, muito mais que uma pessoa, possuindo significados quase infinitos, dependendo de quem está vendo a foto, daí uma das forças da fotografia e do poder da imagem.

Além e independente de tudo que Obama é ou dizem que seja, uma coisa é certa: o cara é muito fotogênico.

Post Script: vi hoje (26/01) o comentário que o editor de fotografia do New York Times fez sobre essa foto: "...an austere photo for austere times..." ou 'uma foto austera para tempos austeros'. A fotografia escolhida foi uma sem aquele super sorriso pra não causar uma impressão de felicidade, de acordo com um dos acessores do Barack.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

the art of not knowing

today was the last day of the exams to get in the university and even though I'm thirty years old, last year I decided to go back to college, to the university, to the academy. So I've applied to a high degree in Visual Arts. The exams to be accepted are held in a system that do not evaluate the intelligence of a person, but the ability to memorize the highest amount of detail and information, and doesn't judge if someone is apt or deserves to be in that class. But anyway, it's an unfair world, isn't it? .... but I gotta tell you, it may be well worth it.

So it got me thinking, and I realized that when I was seventeen years old my art teacher insisted so much that I entered a photograph to "The Scholastic Art and Writing Awards" (an award given to selected high school students all over the US) and got honored the "Gold Key" "For Excellence in Visual Arts", and got my picture on the exhibition of all the awarded works from all over the country, in New York City. It was 1996 and the photo awarded is not this one.

That same year I visited for the first time the Metropolitan Museum of Arts, and was so fascinated that I began to take lots of photos, then I remember thinking that I had to do something different than just register the art works. I had to interfere, manipulate. And so I did. This photograph of The Bronze Age, by Auguste Rodin, is a hand held slow speed shot, a little bit shaky on purpose (f2.8 / 15), a little out of focus, from a different point of view and a different color tone, and the composition values the background just as much as the sculpture itself - it's not cropped, it's the full frame of the 35mm color negative.

I remembered all this today as I was sitting there taking the final exam. I'm not sure if I will make enough points to get in but one point is clear to me now: a paradigm was broken in my mindset just by putting myself though this process and acknowledging to myself that that's what I really want and finally go after those inner drives that for all those years I managed to delay, postpone, withhold. I have always been a self taught man and even though someways it made me weaker it also made me stronger, for so many reasons, and because it's a lot more difficult to learn by yourself, alone in a room. The possibility of being in a room with a teacher that has a doctorate in Sorbonne and twenty so more students really appeals and suits me now.

After all these years of being a lone wolf, rogue artist, I acknowledge the power of the academy, the classroom and the environment of learning. Not to make an artist of someone, but to make someone study art in a daily basis and pursue the understanding of what he/she claims to make, do or know about.

Years later I named this picture "Palimpsestic Rodin" because of the meanings of the term: palimpsestic: derivative, adjective, origin via latin from greek "palimpsestos" from palin 'again' + psestos, 'rubbed smooth' - I not only made a hand held slow speed shot that goes right to the 'rubbed smooth' root of the meaning of the word - but also adds to the figurative meaning of the term palimpsest: "something reused or altered but still bearing visible traces of its earlier form".

Art being art photographed, with meaning and intent, with a soul drive that transcends the act and continues to add meaning throughout the years as the learning evolves.

But none of that matters when it gets to get into college for an art major course. Nobody's asked me anything about that. And even though for the last fifteen years my lifestyle does not make my memory any better, I guess I did good. At least I'm way above average points, except in math and chemistry... but anyway, that's not the point. The point is that I ended up finding out that I actually knew more that I though I did and did way better then I though I would. Even if the odds are against me because I did not prepare or study at all, I do have a shot. May the force be with me... Right now until January 19th when the results are published, all I can do is practice the art of not knowing.


a little info from MET on the sculpture of this magnificent, incredible, unbelievable artist:
http://www.metmuseum.org/toah/hd/rodn/ho_07.127.htm#