terça-feira, 21 de abril de 2009

metais diferentes


pra criar não adianta somente a vontade e a pré disposição, precisa de tempo. Sem o tempo de ficar tentando, fazendo, experimentando, pensando, sendo, em última instância - porque pra criar tem que ser - tem que estar ali, tem que ter o tempo, no sentido pragmático e existencial.

Outro ingrediente fundamental é a concentração. Tem que estar com a mente naquilo, só naquilo, tem que conseguir sublimar todo resto pra criar mesmo, tem que estar com o que em inglês consigo dizer melhor, with your mind into it. Se não estiver dentro, focado, concentrado, imerso, fica mais difícil.

Claro que dá pra fazer de outro jeito e também funciona, tenho feito isso há anos, porém não é o ideal. Fotografar, pintar ou desenhar se tornam mais difíceis com um pensamento dividido - ou atrapalhado - por trabalho, contas pra pagar, coisas pra fazer, entregar, mais contas pra pagar, coisas pra comprar, trabalhos pra agendar, produzir, fazer. Fora todo resto da vida pessoal. Nada disso serve de desculpa e não tem a ver com dar desculpa mas constatar uma dificuldade, talvez a maior, ou a única.

E criar nas horas vagas não adianta, ou não supre a necessidade íntima e particular. Teria que ser um full time job. Teria que ser, e poderia ser, se vender arte não fosse o melhor jeito de não ganhar dinheiro... então que fazer? As contas sempre chegam na hora certa... bom, tem que trabalhar. Pensei em voltar pra faculdade e consegui mas faz uma semana que não apareço por lá... fui na terça, e as nove da noite, quase terminando o último trabalho, me ligam dizendo que "aquele" trabalho que eu orçei e ficou o mais caro foi feito com o mais barato e ficou uma merda e não foi aprovado, queriam que eu fizesse pro outro dia, ao meio dia. Fiz né, fazer o que? Fiquei a madrugada toda fotografando, chegaram na agência em São Paulo no outro dia de manhã e tava pronto, fui fazer a segunda parte e matar aula, ao meio dia tava pronto, de tarde tinha outro trabalho rolando e ficou pronto de madrugada, no outro dia cedo também matei aula e no outro também. Não me lembro direito mas acho que dormi só na sexta... as aulas? não fui... arte? não deu tempo... minhas coisas que eu gostaria de fazer, revelar uns filmes da fila, escanear?... não deu tempo. Não vem dando tempo há muito tempo.

Hoje em dia não deu tempo é uma desculpa que não cola, não funciona, ainda mais na UFRGS ou no trabalho. Tem que dar né...

Essa foto (além dos elementos de gestalt) mostra também a incongruência e a dicotomia de todo esse papo de fazer duas coisas ao mesmo tempo. Tocar sax com uma arma na cintura, fazer uma coisa que não tem nada a ver com a outra, ter que se dividir entre a necessidade e a vontade própria, entre o 'quero' e o 'tenho que', que sempre termina virando 'queria' e 'tenho que'.

O difícil é fazer arte e ir à aula, ficar sem dormir dá pra aguentar.

terça-feira, 14 de abril de 2009

sem explicação II


sem saber muito bem porque, fotografamos. Desde criança quase todos nós vivemos em uma cultura visual que dá um valor imenso às fotografias sem saber muito bem porque, sem entender como chegamos a isso, a ser assim.

Álbuns de família sempre foram sagrados, e quando olhamos para as fotos não dizemos olha a foto dele mas sim olha ele: as fotografias se tornam as pessoas. Ter a fotografia de alguem é estar mais perto, é ter a companhia, a fotografia aproxima as pessoas.

E de onde vem esse culto à imagem, essa relação emocional que temos com a fotografia? Imagine a vida sem a fotografia. Imagine nunca ter visto a fotografia de ninguém, nunca ter se visto em uma fotografia, nunca ter visto uma fotografia na vida. Nunca ter imaginado que era possível.

Em 1839 não havia fotografia. Todos no mundo eram assim, nunca tinham visto ou se visto em uma foto. Então a mais revolucionária mudança cultural do século e talvez da história virou notícia. Um frenesi tomava conta das ruas e as pessoas incrédulas duvidavam até verem e serem surpreendidos pela invenção que mudaria a cultura da humanidade para sempre.

Do daguerreótipo até às fotografias digitais, a massificação e banalização da mídia/meio (medium) fez com que nos acostumássemos de tal forma que nem pensamos no impacto da invenção, na influência na cultura, da mudança no estilo de vida da sociedade à medida que os equipamentos foram mudando.

Hoje em dia todo mundo tem uma câmera digital. Todos temos fotos de tudo, e fotografar mais do que nunca virou sinônimo de possuir. Se não temos uma Ferrari, fotografamos, possuímos a imagem. Se conhecemos alguém logo pedimos uma foto, mais do que nunca na história, a sociedade é visual e a imagem e seu culto são parte do dia a dia. Das capas de revista aos álbuns de família, da publicidade ao orkut, tudo gira em torno da imagem, mais do que nunca.

Fico pensando se aqueles caras, na época, imaginavam que chegaria a isso, se Daguerre se dava conta do que tinha acontecido. Talvez como agora quase ninguém se dá conta do que aconteceu no passado, eles também não se davam conta do que aconteceria no futuro. Talvez.

A foto aqui de cima é com luz natural, sem photoshop. A fonte utiliza a mesma água, sempre em movimento, nunca igual, assim como a fotografia. Fiz durante um trabalho na praia, enquanto esperava uma nuvem passar. 125/f4, daria pra fazer na mão mas no tripé é melhor porque o simples trabalho de montar e ajustar faz pensar mais sobre a posição da câmera.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

luz, câmera, ação


em qualquer dia comum, os sentimentos que temos como resultado do que vemos, fazemos e passamos, refletem (de uma maneira ou de outra) os sentimentos que fotografias - nossas ou de outros - produzem.

Sentimentos são produzidos (ou causados, derivados) por tudo que passamos, fazemos, vemos. A fotografia só existe porque alguém sente vontade de fazê-la. Porque fotografar isso ou aquilo, desse ou daquele jeito? Todas as decisões são definidas pelos sentimentos. Nossas ações são movidas pelos nossos sentimentos mesmo quando negativos: não vou fotografar isso, ou desse jeito.

Esses sentimentos nos tornam responsáveis pelo resultado, e o resultado de fotografar - ou não fotografar - gera outros sentimentos irreversíveis e todos tem uma só fonte de culpa ou mérito: o autor - no exemplo, o fotógrafo.

Então quando decidimos - escolhemos - fazer, ou não fazer alguma coisa, temos que lidar com o resultado. O arrependimento, a culpa e o sofrimento causado pela ausência, pela falta de ação - pegar a câmera, ajustar e apertar o botão - nunca é maior do que o inverso, ou seja, tentar fazer, tentar conseguir, nunca será pior do que não tentar.

Fotografar é também tentar, querer, se deixar descobrir o resultado, conhecer a consequência, do fazer, do decidir, agir, da atitude. Toda fotografia é gerada pela atitude, e toda arte é gerada pela atitude de querer tentar, querer fazer.

A iniciativa, a ação, é a base, o começo, do resultado. E o resultado é a mistura da nossa atitude com o mundo: pra saber o que pode acontecer só tentando. Quem não tenta não consegue, se não apertar o botão não há fotografia. Luz, câmera, ação.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

It isn't really about making "good" pictures - text by Jeff Ladd, photographer



It Isn't Really About Making "Good" Pictures

As counterintuitive as it sounds, studying photography or putting into practice what one learns is not just about making "good" pictures. As students or even professionals, we come equipped with images in our heads that we identify as "good" masterworks. It used to be said that if a photographer made five great pictures a year that would stand the test of time, then that was a great year for that photographer. But the real point of photographic education is establishing a relationship with a medium that informs your life even when you are not directly engaged with it. The "good" photos that may come from that relationship (as wonderful gifts) are ultimately secondary to the pursuit. Anyone can learn how to make a photograph that suits a set of criteria of being "good." There have been dozens of "how to" books that lay out such direction very clearly and concisely. But what do you learn from photography pursued in that manner? How is that a sounding board for your relationship to the world and your interest in what you are describing?

The pursuit of art is a three-way collaboration between the world, the medium, and the artist. The artist is the weak link. What makes any established relationship with any artistic medium ultimately necessary for any individual is how that relationship directs our engagement with the world. My link to the world is through photography, and if making "good" photos was the endgame, then I would have given up my pursuit. The hidden gift is that with the establishment of that relationship, the medium and the world (and ultimately you) do not allow one to rest on their successes. The medium and your lessons learned force you to continuously up the ante in your picture making and your pursuit of knowledge. Your past successes will most likely fade with time, because you are interested in the next photograph. This constant self-criticism is what at times defeats artists but at other times causes them to continue to grow and challenge themselves. If it weren’t for that self-criticism, the artistic side of the medium would have died long ago.

—Jeffrey Ladd, photographer and ICP - International Center of Photography - faculty member.

Thanks a lot, Jeff.
I made this photograph in São Paulo, 2003.